quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Você tem que ler isso!

Julia Germano Travieso

Para quem tem milhares de músicas no computador mas está frequentemente cansado delas, uma playlist nova é sempre uma boa pedida. Qual não foi minha surpresa quando, em um dia de palestras, me deparei com um livro que me dizia, em letras garrafais: Você tem que ouvir isso! 

Senti aquela palpitação que alguns sentem com um prato de batatas fritas e bacon, outros com cerveja e que Romeu deve ter sentido ao ver Julieta pela primeira vez. A capa colorida, com notinhas musicais cantantes, um teclado hipster e uma vitrola que vomita arco-íris me fez voltar à infância. Fiquei curiosa com o fato de uma capa dessas estar exibida em um evento acadêmico. 

Depois de ler o prefácio (alguém deveria inventar uma nova palavra pra definir esse texto introdutório, essa é chata demais) e ver que o livro era dedicado às filhas do autor, entendi as ilustrações. Luiz Cesar Pimentel é jornalista e já trabalhou nas revistas Trip, Playboy, Rolling Stone e Carta Capital, entre várias outras. Hoje, é editor do portal R7, mas arranjou um tempo para responder a algumas perguntas:



Porque elencar as músicas? Como surgiu essa ideia?
A ideia surgiu quando minha segunda filha nasceu e eu comecei a considerar que tipo de música elas gostariam quando fosse a idade de gostarem de música. Como tenho muitos amigos músicos, comecei a pedir que mandassem uma sugestão de mixtape, que eu montaria e deixaria para elas como “dica do tio x” ou “dica da tia y”. A coisa foi ganhando corpo e quando vi já estava com umas 50. Minha editora se interessou pela ideia e propôs o livro.

Como as pessoas reagiam quando você pedia para elas escolherem as músicas?
Como estamos falando de músicos, de gente que ama música, o entendimento era imediato. Claro que alguns enrolaram, alguns não mandaram, mas isso é da boa vontade da pessoa. De modo geral foi incrível – as pessoas adoraram montar as listas e a ideia de que estavam deixando listas do que é mais caro pra elas.

Muito legal a ideia de colocar a profissão/banda da pessoa e depois, em alguns casos, a família (mãe de Nina, por exemplo). Como você pensou nisso?
Foi para mostrar que essas pessoas já tinham passado por isso. Se não dessa forma, mas pela maternidade/paternidade. E é algo que quando se tem filhos e se gosta muito de música, inevitavelmente se leva em conta.

Quando fez a sua lista, você separou uma metade para Nina e outra para Lola. A intenção era fazer um mapa musical que guia cada uma delas, dependendo da personalidade? 
Exatamente. Você foi no ponto. Mas também duas listas para que eu pudesse colocar mais músicas – privilégios de autor ;-)

Foto: Marina Moia
Você fez duas mixtapes diferentes para tocar na sala de parto de cada filha. De onde surgiu essa ideia? Qual critério você usou para escolher essas músicas?
Pra falar a verdade, eu pensei numa situação de animal, que identifica o primeiro som que ouve na vida com pai e mãe. Não sei onde li ou ouvi isso. Mas, a partir disso, durante a gravidez, pensei 'e qual será a primeira música que elas ouvirão na vida?' (mesmo que não tenham discernimento, a importância está, a meu ver, em fazer parte da história delas).
Eu não sei qual foi a primeira música que ouvi na vida. Mas sei que na semana que nasci My Sweet Lord estava no topo da parada. Então quis fazer isso por elas. Registrar a historia delas. E quando descobri que a sala de parto oferecia a possibilidade de se levar CD, foi o que definiu tudo.

Você tentou ouvir algumas dessas playlists?
Muitas. Quase todas. Na verdade eu explorei muito as listas na base do 'não conheço essa música, deixa ver se entendo por que é tão importante pra essa pessoa'. Fiz isso semana passada, pois os caras do Suede montaram uma lista.

E tocar algumas para as meninas?
Toco sim. Por enquanto toco as citadas, que têm um acento mais infantil, mais palatável para crianças, como Yellow Submarine.

Os critérios para escolha das músicas são diferentes para músicos e críticos musicais? Críticos são de fato mais "críticos", exigentes?
Ah, claro que sim. No papel de crítico, você tem que vestir a camisa de público e observar as forças e fraquezas aparentes, para alertar. Enquanto ouvinte, você fica com olhar ingênuo.

Qual a sua visão sobre o público-alvo do livro, além de suas filhas?
Virou um livro pra todo mundo. Eu, com meus 40 anos, aprendo e me divirto. É um livro pra quem gosta de música. Ponto.

Por fim, existe alguma coisa que você queira falar e eu deixei de fora?
Claro, que minhas listas são as melhores disparadas. Comece por elas. 

Um comentário:

  1. Muito legal a resenha e o livro. Fica ica de um presente que qualquer um ia gostar, até espaço pra montar sua própria lista tem!

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